Uma das drogas usadas no Manicômio de Franco da Rocha foi a escopolamina. Sob altas doses, a substância pode produzir sensação de morte iminente
O portal UOL publicou nesta segunda-feira (14) uma reportagem sobre 24 casos de presos políticos internados pela ditadura militar em instituições psiquiátricas, em nove estados brasileiros. Três dessas internações ilegais ocorreram no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha, considerado nos anos 50, um dos hospitais-presídio mais importantes da América Latina.
“Provocar danos sensoriais, com consequências na esfera psíquica, tais como alucinações e confusão mental”, era algumas das formas de tortura empregadas pela ditadura militar, segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade — criada para investigar violações de direitos humanos durante o regime.
Em 1972, Antonio Carlos Melo (Melinho), estudante de Geologia na USP (Universidade de São Paulo) foi mandado para o Manicômio Judiciário de Franco da Rocha. Um ano antes, em 1971, foi mantido preso na rua Tutóia, no Paraíso (zona sul de São Paulo), onde aliados políticos puderam acompanhar a deterioração do estado mental do estudante. No local funcionava a Oban — Operação Bandeirantes, criada para centralizar a investigação de organizações de esquerda. Hoje, é uma delegacia.
A Justiça Militar o considerou incapaz de responder pelos próprios atos e o condenou a dois anos de internação compulsória. Mas só foi liberado quatro anos depois, em 1976. Quando se viu livre, Melinho foi ajudado por antigos colegas da Geologia da USP, mas nunca se recuperou totalmente.
Durante a ditadura militar, uma das drogas usadas no Manicômio de Franco da Rocha foi a escopolamina. Sob altas doses, a substância pode produzir sensação de morte iminente. Médicos nazistas a combinaram com morfina para praticar eutanásia. Já em Franco da Rocha, a droga foi usada como forma de “disciplina e não terapêutica”, cita um ofício assinado pelo diretor do manicômio em 1968.
Também no início dos anos 1970 passou pelo Manicômio de Franco da Rocha o jornalista João Adolfo Castro da Costa Pinto, acusado de fazer parte da Ação Libertadora Nacional (ALN) —o que ele negava. Em seu laudo psiquiátrico, Costa Pinto disse que “sua doença iniciou-se um ano após ser preso”.
“Eu apanhei muito, me deram choque na cabeça, nos testículos e acho até que estou impotente. Aí me disseram que eu fiquei muito nervoso, tinha ocasião que eu saía de mim, mas não sei explicar. Eu sei que não consigo me distrair, não tenho fome, não durmo, só tenho vontade de ficar deitado”, relatou Costa Pinto ao psiquiatra do manicômio. Em conclusão, o médico assinalou que o jornalista passava por “um quadro mental de intensa apatia e depressão, com ideias delirantes de ruína”.
Aparecido Galdino Jacinto
Lavrador analfabeto, Aparecidão — como era chamado — foi um líder religioso em Rubineia, interior de São Paulo. Em 1970, ele e seus seguidores se opuseram ao alagamento de suas terras para a construção da hidrelétrica de Ilha Solteira — obra da ditadura. Foram presos ao resistirem a uma abordagem violenta da polícia no templo onde se reuniam.
Segundo a Justiça Militar, Aparecidão tinha “ideias delirantes de cunho místico”. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, foi condenado a dois anos de internação no Manicômio de Franco da Rocha. Acabou ficando sete anos.

Foi liberado após uma nova perícia médica declarar que não podia ser considerado louco por sua fé: “Pode ser classificada como delirante a ideia de um homem em [ser] benzedor, de pregar a paz, o bem, dizer que sua força era um dom que Deus lhe emprestava? Se assim fosse, a Justiça estaria abarrotada de feitos criminais contra o Papa, os cardeais, os bispos, os padres, os pastores, os médiuns e todos os mais que invocam o nome do Senhor.”