Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) têm investigado uma abordagem inusitada, porém promissora, para acelerar a transição energética: a utilização do eficiente sistema digestivo das baratas. A espécie Periplaneta americana, comum em áreas urbanas, possui uma composição digestiva altamente adaptada para degradar matéria orgânica variada — como folhas secas, bagaço ou até resíduos — com rapidez e eficácia
.O estudo detalha que esse processo digestivo ocorre em etapas coordenadas, envolvendo enzimas, compostos alcalinos e microrganismos intestinais, formando uma espécie de “linha de produção biológica”. Ao imitar esse mecanismo natural, os cientistas pretendem desenvolver coquetéis enzimáticos mais eficientes e econômicos para uso industrial, em especial na conversão de biomassa em biocombustíveis como o etanol
De acordo com o professor Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP, o objetivo central é identificar quais enzimas e estruturas intestinais da barata atuam na degradação da biomassa vegetal. Esse conhecimento pode ser aplicado na indústria para melhorar o aproveitamento do bagaço de cana-de-açúcar, reduzindo custos e liberando áreas agrícolas para reflorestamento ou outros usos ambientais.
Além dos aspectos bioquímicos, o projeto também contempla uma visão mais ampla de bioinspiração estrutural, ou biomimética industrial. Buckeridge sugere que, além de copiar as enzimas, a indústria poderia adotar materiais flexíveis com “peristaltismo” — movimento semelhante ao do intestino — para otimizar processos, fortalecendo a integração entre tecnologia humana e modelos naturais .
Este estudo faz parte de um contexto mais amplo de valorização da bioenergia no Brasil, que já conta com uma forte base a partir do etanol e biomassa. A bioenergia representa atualmente quase 18% da matriz energética brasileira, com destaque para o etanol e a bioeletricidade, consolidando o país como referência global na produção limpa e sustentável.
