O CEO global da Enel, Flavio Cattaneo, afirmou na segunda-feira (23), em Milão, que apenas “Jesus Cristo” seria capaz de evitar apagões causados pela queda de árvores sobre a rede elétrica em São Paulo. A fala ocorreu ao comentar um problema que tem afetado milhões de consumidores na região metropolitana. A declaração integra a apresentação do novo plano estratégico da companhia para o período de 2025-2027 e reforça a tensão entre a distribuidora e autoridades brasileiras.
Segundo Cattaneo, a rede de distribuição em São Paulo é predominantemente aérea e passa entre árvores, o que torna o sistema vulnerável a eventos climáticos intensos, como tempestades e ventos fortes, que ocasionam quedas de árvores e, consequentemente, interrupções no fornecimento de energia.
O executivo afirmou que a empresa já propôs a criação de “corredores de energia elétrica” com corte e replantio de árvores menores para reduzir o risco de quedas de vegetação sobre os cabos, ou a opção de enterrar a rede elétrica — alternativa que envolveria custos e implicações ambientais.
Prefeitos cobram soluções
Em Cajamar, município atendido pela Enel — assim como outros 23 municípios da Grande São Paulo — a relação entre a concessionária e as autoridades locais tem sido marcada nos últimos anos por conflitos e intensas cobranças por melhorias no fornecimento de energia elétrica.
O atual prefeito, Kauãn Berto, expressou recentemente insatisfação com a qualidade do serviço prestado pela Enel, especialmente após episódios de apagões prolongados registrados em bairros como Panorama e Jordanésia. Em setembro de 2025, um temporal deixou mais de 43 mil imóveis sem energia, o que motivou críticas duras da administração municipal.
Após o episódio, moradores de Parque São Roberto, em Cajamar, organizaram protestos contra a repetição de apagões que chegaram a durar mais de 24 horas, afetando inclusive o abastecimento de água em algumas áreas.
Em 1º de abril de 2025, o prefeito Kauãn Berto se reuniu com o presidente da Enel na sede da distribuidora para cobrar soluções eficazes para as falhas recorrentes no fornecimento de energia, reforçando a necessidade de podas de árvores em locais críticos e melhorias no atendimento à população.
A tensão também tem histórico anterior: o ex-prefeito Danilo Joan chegou a viralizar em vídeos na CPI da Enel estadual no período de 2023/2024, confrontando representantes da concessionária e exigindo respeito à população diante das falhas frequentes no serviço.
Autoridades do estado, como o Procon-SP, também abriram procedimentos para averiguar falhas da concessionária no fornecimento de energia em municípios da região — incluindo Cajamar — após o temporal e os apagões que impactaram consumidores além do prazo legal de restabelecimento.
Proposta de mudança
A declaração polêmica do CEO da Enel reacendeu o debate público sobre a responsabilidade da empresa e das autoridades na mitigação dos apagões. Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes rebateu a afirmação de Cattaneo, dizendo que “nem Jesus Cristo” salvaria a Enel, em crítica à postura da empresa diante das queixas da população.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) também avalia possíveis medidas regulatórias em relação à concessão da Enel no estado, em função da recorrência de apagões e da pressão por melhorias no serviço.
