O Dia Internacional da Mulher costuma ser celebrado como um marco de conquistas, mas também é um momento importante para reflexão sobre violências que persistem, como o feminicídio no Brasil e a expansão da misoginia, hoje amplificadas pelas redes sociais.
O ódio raramente nasce apenas do outro: ele revela conflitos internos, fragilidades narcísicas e angústias profundas. A misoginia pode ser compreendida, em parte, como uma defesa psíquica diante da transformação das posições de gênero na sociedade. Quando as mulheres conquistam mais autonomia econômica, política, sexual e simbólica, certos sujeitos vivenciam isso como uma ameaça à identidade masculina tradicional.
Do ponto de vista psicanalítico, essa ameaça pode despertar sentimentos inconscientes de castração simbólica: a perda de um lugar de poder historicamente garantido. Em vez de elaborar essa perda, alguns indivíduos recorrem à violência ou à desqualificação da mulher como forma de restaurar, imaginariamente, esse lugar.
O feminicídio aparece, então, como a expressão extrema dessa lógica: quando o outro — a mulher — deixa de ser reconhecido como sujeito e passa a ser tratado como objeto sobre o qual se exerce domínio absoluto. A violência surge onde a alteridade não é tolerada.
Atualmente, as redes sociais criam um cenário particular para essa dinâmica psíquica. Elas funcionam como amplificadores de afetos primitivos: raiva, ressentimento e frustração encontram ali comunidades que reforçam crenças misóginas e normalizam discursos violentos. O algoritmo frequentemente privilegia conteúdos que provocam indignação ou conflito, reforçando bolhas de pensamento.
Nesse ambiente, o que antes poderia permanecer como fantasia hostil passa a ser validado coletivamente, criando uma espécie de “superego grupal” que legitima o desprezo e a agressividade contra mulheres. Além disso, há um fenômeno psicanalítico clássico: a desumanização do outro à distância. Na tela, o outro se torna imagem, perfil ou avatar, o que facilita projeções e ataques sem o confronto com a humanidade real da pessoa.
A luta contra o feminicídio e a misoginia não é apenas jurídica ou policial; é também psíquica e cultural. Implica transformar imaginários, questionar modelos rígidos de masculinidade e criar espaços onde homens possam elaborar frustrações e perdas simbólicas sem recorrer à violência.
Se a violência nasce, muitas vezes, da incapacidade de lidar com a diferença, então a tarefa coletiva é justamente reconhecer a alteridade: admitir que o outro não existe para confirmar nossa identidade, mas para coexistir com ela.
Nesse sentido, o dia 8 de março não é apenas uma data de homenagem, mas um convite a interrogar profundamente as estruturas sociais e inconscientes que ainda sustentam a violência de gênero.