A tentativa do deputado federal e presidente estadual do PT, Kiko Celeguim, de criticar o machismo na direita acabou provocando um efeito reverso dentro do próprio partido. Suas declarações sobre Michelle Bolsonaro, feitas no último sábado (6) durante a abertura do encontro de mulheres do PT, no Palácio do Trabalhador, geraram desconforto entre militantes e trouxeram novamente ao centro do debate acusações de incoerência que o acompanham desde 2023.
Segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, Celeguim afirmou que a direita não estaria preparada para lançar Michelle como candidata à Presidência, o que teria motivado Jair Bolsonaro a escolher o filho, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como sucessor político. Ao justificar sua tese, ele mencionou o trabalho da ex-primeira-dama à frente do PL Mulher e a repercussão interna das críticas que ela fez à aproximação do PL com Ciro Gomes no Ceará — críticas que resultaram em reprimendas públicas dos filhos de Bolsonaro.
A declaração, no entanto, desagradou parte do público presente. Militantes interpretaram o comentário como uma espécie de defesa de Michelle, interromperam a fala do deputado e classificaram o episódio como uma “grande gafe”. A reação escancarou divergências internas e atingiu o dirigente no ponto mais sensível de sua atuação recente: a acusação de incoerência.
Deputado nega defesa de Michelle, mas admite incômodo
Questionado pela coluna, Celeguim negou qualquer defesa da ex-primeira-dama e minimizou o episódio:
“Foi apenas uma pessoa entre 400 que discordou”, afirmou ao Painel.
Ele reiterou que seu objetivo era denunciar o machismo que, segundo ele, permeia todo o espectro político:
“Acho que a extrema direita é intolerante demais para lançar uma mulher como candidata.”
O petista detalhou ainda que imaginou uma conversa interna no clã Bolsonaro, na qual Jair e Flávio teriam descartado Michelle com a frase “essa mulher [Michelle] nem ferrando”.
O passado volta à tona: militantes lembram 2023
A repercussão negativa reacendeu um episódio que até hoje desgasta o deputado: a escolha do candidato do PT de Franco da Rocha nas eleições de 2024.
Em setembro de 2023, o diretório municipal surpreendeu aliados ao lançar Marcus Brandino — irmão de Kiko Celeguim — como candidato a prefeito. A decisão contrariou a expectativa de que Lorena Oliveira seria a candidata natural, gerando uma crise interna que culminou com a desfiliação de mais de 40 pessoas, incluindo Lorena.
À época, o PT afirmou ao Conexão Juquery que Brandino havia sido escolhido por meio de eleição interna. Ex-filiados, entretanto, contestaram a lisura do processo, alegando desequilíbrio estrutural: Brandino era vice-presidente do diretório; sua ex-esposa presidia o partido; e Kiko comandava o diretório estadual — uma situação que, para eles, tornava a disputa desigual desde o início.
Um dos ex-filiados foi direto:
“Pela primeira vez o PT de Franco da Rocha teve a chance de lançar uma mulher com chances reais de vencer, mas optaram por um homem branco, hétero, que nunca havia disputado uma eleição, só porque era irmão do Kiko. É herança de família.”
Contraponto revela contradição
A defesa pública de Celeguim sobre machismo na política expôs uma contradição incômoda para o deputado. Enquanto criticava a direita por supostamente barrar uma mulher competitiva, ex-filiados do PT apontavam que, sob sua liderança, o diretório de Franco da Rocha teria feito exatamente o mesmo ao preterir Lorena Oliveira.
O episódio demonstra que o desgaste interno causado em 2023 não foi superado — e que a fala do deputado, embora direcionada à direita, acabou reacendendo feridas em seu próprio campo político.
