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Duas histórias que se tocam

Uma tragédia que revela o impacto do cuidado — ou da falta dele — na construção de vidas tão distintas .

A tragédia envolvendo o jovem de 19 anos que invadiu o recinto de uma leoa da mesma idade abre espaço para um paradoxo profundamente simbólico. Ambos nasceram no mesmo ano, ambos chegaram à mesma marca temporal da vida, mas suas trajetórias não poderiam ser mais distantes.

Leona (a leoa) cresceu dentro de um ambiente de pertencimento: nasceu em um zoológico, foi criada junto aos pais durante a fase crítica do desenvolvimento animal, recebeu alimentação regular, manejo responsável, estímulos sociais e afetos próprios da espécie. Eventualmente, teve um companheiro, vivenciou trocas, vínculos e estabeleceu uma vida minimamente estruturada dentro do que é possível à sua condição.

Gerson (o rapaz), por sua vez, percorreu o caminho oposto. Também com 19 anos, mas marcado por descontinuidade, institucionalizações, afastamentos familiares e pela ausência radical do outro cuidador que é o alicerce da constituição do eu. Sua história é atravessada por falhas na oferta de sustentação psíquica: falta de afeto estável, ausência de um lar contínuo, carência de escuta e de cuidados mínimos para suas angústias e sofrimento mental. A estrutura subjetiva que poderia ter se formado a partir do cuidado — a “costura” que o afeto faz na psique — permaneceu esgarçada.

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Na psicanálise, especialmente em Freud e Lacan, a base da constituição do sujeito é a relação com o “Outro”: aquele que nomeia, acolhe, cuida, responde ao choro do bebê, organiza o caos pulsional inicial e oferece um contorno simbólico ao corpo e ao mundo.

Sem essa presença estruturante, o psiquismo fica vulnerável, exposto a rupturas, a impulsos não simbolizados, a atos que buscam desesperadamente uma forma de inscrição.

Enquanto a leoa teve sua agressividade compreendida e contida pelo ambiente — reconhecida como parte de sua natureza e integrada à sua vida de modo saudável — o rapaz teve impulsos, angústias e delírios deixados sem amparo. Para o animal, o ambiente cumpriu sua função de “Outro cuidador”. Para o jovem, essa função falhou repetidas vezes.

Quando o rapaz invade o recinto, o ato pode ser lido como um movimento de ruptura da fronteira simbólica: um passo em um lugar que não era para ser pisado, como se houvesse ali uma convocação inconsciente para o perigo, para o encontro com algo da ordem do indomável. A leoa, por outro lado, reage de acordo com sua natureza animal e com sua história de cuidado: reconhece ameaça, protege o território. Seu ataque não é “mal”, é instinto.

E é justamente essa diferença que evidencia o paradoxo:

A leoa, cuidada, pôde integrar seus impulsos e sobreviver; o rapaz, não cuidado, foi engolido pelos próprios impulsos e sucumbiu.

Ambos com 19 anos — mas apenas um teve a possibilidade de se tornar inteiro.

O caso expõe o que a psicanálise insiste há mais de um século: ninguém se constitui sozinho.

Quando um sujeito cresce privado de vínculos, de nomeação, de carinho e de estabilidade, o psiquismo cria buracos difíceis de sustentar. Sem cuidados adequados, problemas de saúde mental se agravam, o sentimento de solidão se radicaliza e a relação com a própria vida se fragiliza.

A família — biológica ou substituta — não é apenas um lugar: é uma função estruturante. E quando essa função falha, o risco de derivas subjetivas aumenta drasticamente.

O jovem buscava, talvez sem saber, um tipo de encontro impossível: um contato com algo grandioso, perigoso, que desse sentido ao que dentro dele estava sem nome. A leoa, ao reagir, apenas expôs o que lhe é próprio. Mas revelou também o que faltou ao rapaz: limites, proteção, acolhimento, significação.

Em suma, o paradoxo entre a leoa e o jovem não é apenas uma comparação entre humano e animal. É uma metáfora poderosa sobre como a presença do cuidado molda destinos, subjetividades e até a possibilidade de sobreviver.

A leoa, cuidada desde o nascimento, tornou-se um ser íntegro dentro do que sua natureza permite.

O rapaz, negligenciado e desenraizado, tornou-se alguém fragilizado, exposto, sem continente psíquico.

O encontro entre eles, trágico e brutal, escancara o que a psicanálise tenta nos lembrar:

quando o cuidado falha, o sujeito fica à mercê do desamparo.

E o desamparo é, sempre, um risco de morte — literal ou simbólica.

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