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Sim, metemos marcha!

PLPs de Franco da Rocha marcham em Brasília: ancestralidade, luta e cidadania .

À bordo de um ônibus lilás, quinze horas de estrada nos separavam de um planalto a outro. Após algumas paradas indispensáveis, chegamos a tempo para engrossar a marcha. Promotoras Legais Populares de diversas cidades de São Paulo, enfim, alcançaram a Esplanada.

É preciso dizer que o primeiro desafio não é a viagem, mas conseguir driblar a rotina feminina, em dias úteis, em prol da militância: compromissos, empregos, trabalhos e a mendicância por folgas, trocas de plantões e as faltas inevitáveis. A escola e os cuidados das crianças precisam ser terceirizados para que se tenha o “luxo” de exercer cidadania. Mas deu-se assim: uma noite, uma marcha, outra noite, e a rotina chamando de volta, ignorando pernas inchadas, cansaço e corpos doloridos.

Já foi diferente, num tempo em que mulher negra sequer podia burlar qualquer rotina, principalmente as das mulheres brancas que iniciaram a luta feminista. Enquanto estas iam às ruas e às marchas reivindicar direitos como voto e inserção no mercado de trabalho, cabia às mulheres negras cuidar de suas casas e filhos, à margem de qualquer direito. Ali, a luta ainda era outra: a de serem enxergadas como pessoas.

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Décadas depois, mulheres negras marcham no centro político do país reivindicando garantias de bem-viver e pela reparação cambaleante que já deveria ter chegado à velocidade da luz. Entre faixas, cartazes e palavras de ordem, uma chamava a atenção: “Se é que existem reencarnações, eu quero voltar sempre preta”. Para além da afirmação racial identitária, há o desejo implícito de ver o que provavelmente não veremos nesta existência. Nossa luta não é mesmo só para nós, é para além de nossa geração. Assim como nossas mais velhas nos deixaram colheitas, plantamos hoje para que haja melhores dias às que virão.

Mobilizar 300 mil mulheres negras em marcha foi tarefa árdua e demorada, mas inegavelmente expressiva. Um mar negro exigindo respostas, articulações de políticas públicas e garantia de direitos. Há muitos movimentos numa só marcha: percorrer trechos e ocupar espaços, protagonizar falas e promover debates. Ver mulheres negras de todas as idades e de todos os cantos do Brasil — e até de fora dele — caminhando e exigindo justiça aquece o coração e encoraja a alma; foi força ancestral… aquilombamento a céu aberto.

Em marcha, foi bom perceber aliados no entorno: mulheres brancas respeitando o protagonismo das negras; homens brancos e negros marcando presença. A luta é grande, é preciso apoio hoje e sempre; o bem-viver é querência coletiva, não só privilégio de alguns.

Queremos pensar que a energia da marcha tenha invadido os ministérios e gabinetes, e que nossos gritos tenham chegado àqueles políticos que não se apresentaram em apoio, mas que, à espreita, nos observaram. Desses, quase podemos ler os pensamentos, os quais já respondemos de antemão:

Sim, as negrinhas estão ousadas!

Sim, queremos tudo o que nos devem!

E, sim, ontem, amanhã e sempre estaremos prontas para meter marcha!

Promotoras Legais Populares, mais conhecidas como PLPs, são mulheres capacitadas em direitos humanos das mulheres e em outras temáticas, em formações populares, e atuam voluntariamente em suas comunidades na defesa e promoção de direitos. Compuseram a caravana PLPs dos municípios de Franco da Rocha, Mairiporã, Jundiaí e Jaú.

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