Supostos comentários inapropriados realizados pelo professor são as principais queixas entre alunas e ex-alunas da escola
Um professor de matemática da Escola Estadual Paulo Duarte, em Franco da Rocha, voltou a dar aula no dia 26 de julho após pouco mais de quatro meses afastado por suspeita de assédio sexual. A esposa do professor, que dá aula de Geografia e era mediadora na mesma escola, também estava afastada.
A informação de que o docente retornou às atividades foi repassada ao Conexão Juquery por três alunas do terceiro ano noturno (que pediram para não serem identificadas) e confirmada por funcionários da escola.
O professor havia sido afastado no dia 10 de março deste ano após supostamente dizer a uma aluna “que ela ficava muito sexy com o vestido que estava usando”. Abalada com o comentário, a vítima procurou a direção da escola para denunciar o ocorrido.
A informação da denúncia repercutiu nas redes sociais e imediatamente alunas e ex-alunas do professor reforçaram as acusações de assédio.
Casos semelhantes
Beatriz*, 16 anos, é uma das alunas do 3° ano e contou ao Conexão Juquery que o comportamento do professor sempre causou desconforto nela e nas demais colegas durante as aulas.
“Ele pega na mão das meninas para ver as unhas delas. Se alguma estiver quebrada, ou algo do tipo, ele fala que estão assim para se masturbar (sic)”, afirma.
Os supostos comentários inapropriados realizados pelo professor são as principais queixas entre as alunas e ex-alunas ouvidas pela reportagem.
Segundo Ingrid*, 17 anos, também aluna do 3° ano, durante uma conversa com as amigas sobre comer demais, o professor teria dito que, se elas continuassem a comer tanto, não teriam “um corpinho gostoso para sempre”.
Ela afirmou ainda que os comentários perturbadores também eram disparados pela esposa do docente e estavam sempre relacionados às roupas das alunas. “Ela disse: ‘você não pode vir com esse tipo de roupa, porque os meninos irão no banheiro ejacular’. Minha amiga chegou tremendo e aos prantos”, relatou.
Uma ex-aluna – que prefere não se identificar -, disse que esse comportamento é antigo, pelo menos desde que ela teve aula com o mesmo professor, em 2013. “Ele chegava e escrevia ‘Professor Gostosão’ e ‘Professor Gatão’ na lousa, sempre achei estranho”, conta.
Outras acusações
De acordo com Beatriz, após a repercussão do caso as alunas do terceiro ano noturno foram convocadas para uma reunião e orientadas a evitarem certos tipos de roupas, para que situações como essas não se repetissem.
“Foi dito que nossas roupas não eram adequadas para o ambiente escolar, e que quem estivesse incomodada poderia procurar outra escola […] um funcionário da direção chegou a dizer que o problemas não era nossos shorts e sim as nossas pernas”, explicou.
Retorno às aulas
Gisele*, 18 anos, comentou que, dias antes do recesso escolar, um grupo de sete meninas foram chamadas até a sala da coordenação e informadas de que o professor iria retornar, e que era para elas aceitarem a decisão e não fazerem “barraco”.
A aluna também informou que na primeira aula do professor de matemática após o retorno, a turma teve que assistir ao filme “Relatos Selvagens” e responder a um questionário sobre os perigos de falsas acusações.
“Após o filme, tivemos que responder a um questionário sobre o que os personagens do filme fariam de diferente para que essa situação não acontecesse… e como a falta de comunicação poderia prejudicar alguém”, contou.
O filme exibido pelo professor reúne seis histórias de vingança vividas por personagens que são confrontados com situações que os deixam à beira de perder o controle.
O outro lado
O Conexão Juquery procurou a direção da Escola Estadual Paulo Duarte para se posicionar sobre o caso. Funcionários da escola informaram que não estavam autorizados a comentarem sobre o assunto. Tentamos contato com a Diretoria Regional de Ensino, mas não tivemos reposta até o término desta reportagem.
A Secretaria da Educação do Estado (Seduc-SP) informou que repudia toda e qualquer forma de assédio dentro ou fora do ambiente escolar.
Disse também que assim que tomou conhecimento do fato, a Diretoria de Ensino de Caieiras, responsável pela unidade, abriu uma apuração preliminar, que está em andamento, sendo que se comprovada a conduta o docente terá a punição de acordo com o estatuto do servidor público de São Paulo.
Confira a nota da Seduc na íntegra:
A Secretaria da Educação do Estado (Seduc-SP) repudia toda e qualquer forma de assédio dentro ou fora do ambiente escolar. Assim que tomou conhecimento do fato, a Diretoria de Ensino de Caieiras, responsável pela unidade, abriu uma apuração preliminar, que está em andamento, sendo que se comprovada a conduta o docente terá a punição de acordo com o estatuto do servidor público de São Paulo.
A escola coloca à disposição dos estudantes, mediante autorização dos responsáveis, o atendimento pelo Programa Psicólogos na Educação. O caso foi inserido na Plataforma Conviva SP – Placon, que acompanha o registro de ocorrências escolares na rede estadual de ensino.
A unidade escolar e a Diretoria de Ensino de Caieiras estão à disposição da comunidade escolar e autoridades para esclarecimento dos fatos.
O que é assédio sexual?
O assédio sexual é definido por lei como o ato de “constranger alguém, com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função” (Código Penal, art. 216-A).
Alguns exemplos mais comuns de assédio sexual são: insinuações explícitas ou veladas; gestos ou palavras, escritas ou faladas; perturbação, ofensa; narração de piadas ou uso de expressões de conteúdo sexual; entre vários outros que podem ser conferidas aqui.
*Os nomes utilizados nesta matéria são fictícios para preservar a identidade das alunas.
