Urgência pela vida

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A manifestação Mulheres Vivas, realizada em São Paulo, ganhou força não apenas pela convocação nacional contra o feminicídio, mas sobretudo pelo impacto emocional coletivo diante das notícias de violência extrema registradas nos últimos meses. No próprio dia do ato, enquanto milhares tomavam as ruas, novos casos de feminicídio surgiam no estado — como o de Tainara, atropelada e arrastada — reforçando a sensação de urgência. Um dos episódios envolveu uma mulher morta na frente da filha, um símbolo brutal da continuidade transgeracional da violência, em que o trauma não atinge apenas a vítima, mas também testemunhas inocentes que carregam para a vida marcas profundas de dor, medo e vulnerabilidade.

Esse pano de fundo conferiu ao protesto um tom ainda mais urgente. As ruas tomadas por milhares de mulheres (e aliados) ressoavam uma verdade incômoda: a violência de gênero não é exceção, mas parte de uma estrutura que se repete diariamente. Se ontem houve manifestação, ontem mesmo houve novas mortes — e essa simultaneidade devastadora foi percebida pelos movimentos como prova de que o país vive uma epidemia de violência contra mulheres.

Do ponto de vista psicanalítico, o feminicídio é compreendido como o extremo de um contínuo de agressões, que raramente começa de forma abrupta. A violência se instala de maneira lenta e insidiosa, infiltrando-se na vida psíquica da mulher antes de surgir como agressão física. É um processo que geralmente se inicia por meio da violência psicológica, da desqualificação sutil, do silenciamento, da manipulação emocional e, sobretudo, do ciúme mascarado de amor.

Esse “ciúme amoroso”, frequentemente romantizado socialmente, é um dos primeiros sinais da dinâmica de dominação. Na leitura psicanalítica, ele revela não um excesso de amor, mas uma falha narcísica do agressor — alguém que, incapaz de lidar com a alteridade da parceira, precisa controlá-la para manter sua própria identidade estável. O controle torna-se uma defesa psíquica que impede o agressor de enfrentar suas inseguranças, angústias de abandono ou fragilidades internas. E esse controle, inicialmente sutil, vai se tornando habitual, naturalizado, até se transformar em violência explícita.

Para muitas mulheres, o processo é imperceptível no início. A psicanálise mostra que o sujeito tende a aderir à narrativa do outro quando este se apresenta como alguém que supostamente “sabe o que é melhor”, um mecanismo de submissão que se fortalece especialmente quando existe amor, dependência afetiva, medo ou isolamento social. Assim, a mulher, aos poucos, vai sendo esvaziada de sua potência simbólica: deixa de falar, deixa de questionar, deixa de existir como sujeito autônomo. Quando o silenciamento já é absoluto, a violência física deixa de encontrar resistência.

A manifestação Mulheres Vivas, portanto, não foi apenas um grito contra o ato letal em si, mas contra a cadeia psíquica e social que o antecede. Denunciou a cultura que normaliza o controle como cuidado, o ciúme como amor e a posse como romantização. Denunciou a estrutura que ensina mulheres a tolerarem o intolerável e homens a confundirem afeto com domínio.

Ao reunir milhares de pessoas, a mobilização transformou em voz coletiva aquilo que, na violência doméstica, é frequentemente vivido em silêncio absoluto: o medo, a culpa, a vergonha e o isolamento. A psicanálise nos lembra que romper o silêncio é sempre o primeiro movimento de libertação e, por isso, atos como esse têm uma função simbólica essencial: devolvem às mulheres a palavra que lhes foi tomada, afirmando que viver não pode ser um ato de resistência individual, mas um direito garantido socialmente.

Por: Patricia, Tainara, Daniela, Evelyn, Rayane, Allane, Layse, Juliana, Livia…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Conexão Juquery 
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