Essa história poderia começar como qualquer outra que uma cidade pode contar. Mas um lugar só conta algo quando existem pessoas para compartilharem as próprias vivências e repassar o que foi deixado como registro. A forma como os fatos são narrados, chegam de uma maneira diferente para quem vive em Franco da Rocha e percebe a mudança através dos anos, mas, que também chega em quem vem de fora e se interessa em conhecer o que só se ouviu falar como “a cidade dos loucos”.
É importante perceber e conhecer a terra em que caminhamos, afinal, isso nos ajuda a ter uma responsabilidade política e social sobre o local em que vivemos.
Tendo como fio condutor esse pensamento, despertamos para a importância de relembrar a história de Franco da Rocha, que se constrói ao redor do Hospital Psiquiátrico do Juquery, inaugurado no dia 18 de maio de 1898. O local ficou conhecido como símbolo da psiquiatria e contou com nomes muito conhecidos diante do desenvolvimento e de todo projeto idealizado pelo Dr. Francisco Franco da Rocha, que anos depois daria nome à cidade que mantinha, até então, o nome “Estação Juquery”.
Com isso, reconhece-se o papel que o hospital representou para o município. Porém, um dos objetivos da história ser relembrada é também para que ela não se repita.
Origem do nome “Juquery”
O nome Juquery (ou Juqueri) vem do termo tupi yu-kery, que significa "planta que dorme" ou "dormideira". Refere-se a uma pequena flor sensível ao toque que, ao serem tocadas, se “encolhem”. É muito comum nas margens do rio que corta a região.

“Estação Juquery, quem é doido desce aqui”
O dia 18 de maio é marcado como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, uma data que simboliza o movimento social, político e profissional que combate o modelo manicomial. O objetivo é acabar com as práticas desumanas e o isolamento em hospitais psiquiátricos, defendendo direitos humanos, dignidade e liberdade para quem vivencia transtornos mentais.
E em 128 anos de Hospital Psiquiátrico Juquery, franco-rochenses têm a oportunidade de falar da história ao mesmo tempo que reforça a pauta sobre a luta antimanicomial, em um local que carrega um peso histórico.

Antes mesmo de ser cidade, longe de imaginar o seu nome, existiam os trilhos do trem, desenvolvendo-se em torno da estação Juquery (atualmente a cidade de Mairiporã), que foi inaugurada em 1888, na estrada de ferro que ligava Santos a Jundiaí, a antiga “São Paulo Railway”. Os municípios, hoje conhecidos como Caieiras, Francisco Morato, Mairiporã, Cajamar e Franco da Rocha eram “ligados” por essa estação, que ajudou no transporte de mercadorias como o café, por exemplo. Em 30 de novembro de 1944, a parte conhecida atualmente como Franco da Rocha, se desintegrou da Estação Juquery.
Na quarta-feira dia 18 de maio de 1898, às 15 horas o trem vindo da Estação da Água Branca chega a localidade de Juquery trazendo em seu interior os 70 alienados vindos de Sorocaba, os poucos moradores foram até a pequena Estação assistir ao desembarque.Começava naquele dia a surgir uma nova cidade habitada por parentes de enfermos que para o local iam em busca de comprar um pequeno pedaço de terra onde pudesse construir uma moradia e assim prestar um acompanhamento melhor a um parente doente.Dr. Francisco Franco da Rocha pede a contratação do médico Dr. Alberto Seabra e solicita a São Paulo Railway Company que forneça seus passes aos trabalhadores e médicos que viriam de São Paulo prestar serviços. Nessa mesma ocasião o governo de São Paulo inicia a construção de um cemitério onde serão sepultados os alienados que viessem a morrer.
O que não pode ser apagado
A instituição é lembrada como um lugar de "higienização da sociedade", operando o recolhimento forçado de todos aqueles considerados incapazes ou ameaças à ordem pública e moral. Não haviam só pacientes realmente precisando de cuidados por conta da saúde mental, os muros do Juquery abrigavam indivíduos marginalizado pela sociedade na época: usuários de álcool e substâncias entorpecentes, homossexuais, pessoas sem emprego fixo, mulheres que desafiavam os padrões patriarcais da época ou por qualquer outro motivo insano. Sob a justificativa de tratamento, essas pessoas eram submetidas ao apagamento.
Em 1911 o número era de 1.250 pacientes, e nesse momento houve uma ampliação do hospital. Em 1925, já eram 2.029 pessoas internadas. Mas o auge de lotação foi em 1965, com 14.393 pessoas e nas décadas seguintes até 1980 o número chegou a 16.000 internos, segundo registros da época. Isso levanta discussões até os dias de hoje sobre como era o tratamento com os pacientes que eram diagnosticados com algum transtorno mental. Das condições desumanas em se viver em um ambiente superlotado, sem dignidade.

O incêndio
Em dezembro de 2005 houve um incêndio no edifício administrativo. Em horas de um fogo incontrolável, anos de registros de internações e pesquisas médicas foram queimados. A destruição de arquivos impossibilitou o resgate biográfico e a comprovação judicial de maus-tratos de gerações de pacientes. E, por conta disso, há muito que se discute sobre ter sido um incêndio criminoso, provocado intencionalmente.
Dias atuais
Em 1º de abril de 2021 o manicômio fechou as portas de vez, existindo apenas como um espaço físico e carregando uma história que não é esquecida, mas segue sendo ressignificada. Os prédios projetados por Ramos de Azevedo hoje funcionam como espaços para saúde, cultura, educação e compromisso social, sem apagar o que aconteceu, mas dando novo sentido para aquilo que a sociedade enxerga hoje com outros olhos, dentro de políticas públicas e direitos humanos.
Atualmente, há grupos políticos, artísticos e voltados à saúde mental com projetos que visam a preservação da memória, que abrem rodas de discussão sobre o Juquery e outros Hospitais Psiquiátricos.

Exemplo disso foi o “Arte e Cultura na Saúde: Um encontro histórico no Juquery” que aconteceu na tarde de 16 de abril de 2026, dentro do Complexo Hospitalar do Juquery. Nesse momento Cristina Fuentes; Kátia Frediani e Antoniella Santos Viera, três mulheres referência na luta antimanicomial falaram sobre como a saúde mental e a arte seguem entrelaçadas.
O evento trouxe em pauta a discussão antimanicomial, além das experiências pessoais relatadas pelas palestrantes dentro do Juquery anos atrás.
E por falar em evento, interessante mencionar que Franco da Rocha também já recebeu 6 edições do “Festival Soy Loco Por Ti Juquery” (com a 1ª edição no ano de 2018), um evento que abriu as portas de uma parte significativa do Complexo Hospitalar ao público, que teve acesso à salas, espaços e objetos da época. O festival também contava com apresentações e intervenções artística relacionadas ao resgate da memória.

Por isso as peças teatrais, obras de arte, poesias, livros, documentários entre as múltiplas linguagens artísticas seguem contando, nos dias atuais, o que estava sendo registrado há mais de 100 anos atrás.


