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128 Anos de Juquery: A importância da luta antimanicomial e a memória de Franco da Rocha

O nome que deu origem ao que se conhece sobre Franco da Rocha completa hoje 128 anos e traz em pauta o Dia Nacional da Luta Antimanicomial

A imagem mostra a fachada em ruínas do antigo Complexo Hospitalar do Juquery, em Franco da Rocha. O edifício histórico de dois andares está centralizado na foto, exibindo marcas do tempo e de abandono, cercado por um jardim. No segundo andar, as paredes são pintadas de amarelo-ocre com molduras brancas em relevo nas quinas e ao redor das grandes janelas coloniais em arco. O prédio não possui vidros nem telhado nessa seção: através das aberturas das janelas vazias, é possível ver o céu nublado e algumas copas de árvores no interior da estrutura. A pintura está gasta, com manchas escuras de infiltração. O andar térreo está parcialmente escondido atrás de tapumes metálicos cinzas, sob um telhado antigo de telhas de barro.
Foto: Amanda Barboza / Jardim do Juquery em 2019

Essa história poderia começar como qualquer outra que uma cidade pode contar. Mas um lugar só conta algo quando existem pessoas para compartilharem as próprias vivências e repassar o que foi deixado como registro. A forma como os fatos são narrados, chegam de uma maneira diferente para quem vive em Franco da Rocha e percebe a mudança através dos anos, mas, que também chega em quem vem de fora e se interessa em conhecer o que só se ouviu falar como “a cidade dos loucos”.

É importante perceber e conhecer a terra em que caminhamos, afinal, isso nos ajuda a ter uma responsabilidade política e social sobre o local em que vivemos.

Tendo como fio condutor esse pensamento, despertamos para a importância de relembrar a história de Franco da Rocha, que se constrói ao redor do Hospital Psiquiátrico do Juquery, inaugurado no dia 18 de maio de 1898. O local ficou conhecido como símbolo da psiquiatria e contou com nomes muito conhecidos diante do desenvolvimento e de todo projeto idealizado pelo Dr. Francisco Franco da Rocha, que anos depois daria nome à cidade que mantinha, até então, o nome “Estação Juquery”. 

Com isso, reconhece-se o papel que o hospital representou para o município. Porém, um dos objetivos da história ser relembrada é também para que ela não se repita. 

Origem do nome “Juquery”

O nome Juquery (ou Juqueri) vem do termo tupi yu-kery, que significa "planta que dorme" ou "dormideira". Refere-se a uma pequena flor sensível ao toque que, ao serem tocadas, se “encolhem”. É muito comum nas margens do rio que corta a região. 

Fotos: Arquivo pessoal Amanda Barboza

“Estação Juquery, quem é doido desce aqui”

O dia 18 de maio é marcado como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, uma data que simboliza o movimento social, político e profissional que combate o modelo manicomial. O objetivo é acabar com as práticas desumanas e o isolamento em hospitais psiquiátricos, defendendo direitos humanos, dignidade e liberdade para quem vivencia transtornos mentais.

E em 128 anos de Hospital Psiquiátrico Juquery, franco-rochenses têm a oportunidade de falar da história ao mesmo tempo que reforça a pauta sobre a luta antimanicomial, em um local que carrega um peso histórico.

Foto: Reprodução / Acervo José Parada - Estação Juquery 1889

Antes mesmo de ser cidade, longe de imaginar o seu nome, existiam os trilhos do trem, desenvolvendo-se em torno da estação Juquery (atualmente a cidade de Mairiporã), que foi inaugurada em 1888, na estrada de ferro que ligava Santos a Jundiaí, a antiga “São Paulo Railway”. Os municípios, hoje conhecidos como Caieiras, Francisco Morato, Mairiporã, Cajamar e Franco da Rocha eram “ligados” por essa estação, que ajudou no transporte de mercadorias como o café, por exemplo. Em 30 de novembro de 1944, a parte conhecida atualmente como Franco da Rocha, se desintegrou da Estação Juquery.

Na quarta-feira dia 18 de maio de 1898, às 15 horas o trem vindo da Estação da Água Branca chega a localidade de Juquery trazendo em seu interior os 70 alienados vindos de Sorocaba, os poucos moradores foram até a pequena Estação assistir ao desembarque.Começava naquele dia a surgir uma nova cidade habitada por parentes de enfermos que para o local iam em busca de comprar um pequeno pedaço de terra onde pudesse construir uma moradia e assim prestar um acompanhamento melhor a um parente doente.Dr. Francisco Franco da Rocha pede a contratação do médico Dr. Alberto Seabra e solicita a São Paulo Railway Company que forneça seus passes aos trabalhadores e médicos que viriam de São Paulo prestar serviços. Nessa mesma ocasião o governo de São Paulo inicia a construção de um cemitério onde serão sepultados os alienados que viessem a morrer.

A Cidade na Linha do Tempo, Adauri Alves, 2003, pg. 112

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O que não pode ser apagado 

A instituição é lembrada como um lugar de "higienização da sociedade", operando o recolhimento forçado de todos aqueles considerados incapazes ou ameaças à ordem pública e moral. Não haviam só pacientes realmente precisando de cuidados por conta da saúde mental, os muros do Juquery abrigavam indivíduos marginalizado pela sociedade na época: usuários de álcool e substâncias entorpecentes, homossexuais, pessoas sem emprego fixo, mulheres que desafiavam os padrões patriarcais da época ou por qualquer outro motivo insano. Sob a justificativa de tratamento, essas pessoas eram submetidas ao apagamento.

Em 1911 o número era de 1.250 pacientes, e nesse momento houve uma ampliação do hospital. Em 1925, já eram 2.029 pessoas internadas. Mas o auge de lotação foi em 1965, com 14.393 pessoas e nas décadas seguintes até 1980 o número chegou a 16.000 internos, segundo registros da época. Isso levanta discussões até os dias de hoje sobre como era o tratamento com os pacientes que eram diagnosticados com algum transtorno mental. Das condições desumanas em se viver em um ambiente superlotado, sem dignidade.

Foto Reprodução/Acervo de José Parada/ Segundo Pavilhão Masculino do Hospital Central de Juquery, década de 1910

O incêndio 

Em dezembro de 2005 houve um incêndio no edifício administrativo. Em horas de um fogo incontrolável, anos de registros de internações e pesquisas médicas foram queimados. A destruição de arquivos impossibilitou o resgate biográfico e a comprovação judicial de maus-tratos de gerações de pacientes. E, por conta disso, há muito que se discute sobre ter sido um incêndio criminoso, provocado intencionalmente. 

Dias atuais

Em 1º de abril de 2021 o manicômio fechou as portas de vez, existindo apenas como um espaço físico e carregando uma história que não é esquecida, mas segue sendo ressignificada. Os prédios projetados por Ramos de Azevedo hoje funcionam como espaços para saúde, cultura, educação e compromisso social, sem apagar o que aconteceu, mas dando novo sentido para aquilo que a sociedade enxerga hoje com outros olhos, dentro de políticas públicas e direitos humanos. 

Atualmente, há grupos políticos, artísticos e voltados à saúde mental com projetos que visam a preservação da memória, que abrem rodas de discussão sobre o Juquery e outros Hospitais Psiquiátricos.

Foto: Amanda Barboza / Festival Soy Loco Por Ti Juquery 2019

Exemplo disso foi o “Arte e Cultura na Saúde: Um encontro histórico no Juquery” que aconteceu na tarde de 16 de abril de 2026, dentro do Complexo Hospitalar do Juquery. Nesse momento Cristina Fuentes; Kátia Frediani e Antoniella Santos Viera, três mulheres referência na luta antimanicomial falaram sobre como a saúde mental e a arte seguem entrelaçadas.

O evento trouxe em pauta a discussão antimanicomial, além das experiências pessoais relatadas pelas palestrantes dentro do Juquery anos atrás. 

E por falar em evento, interessante mencionar que Franco da Rocha também já recebeu 6 edições do “Festival Soy Loco Por Ti Juquery” (com a 1ª edição no ano de 2018), um evento que abriu as portas de uma parte significativa do Complexo Hospitalar ao público, que teve acesso à salas, espaços e objetos da época. O festival também contava com apresentações e intervenções artística relacionadas ao resgate da memória.
 

Foto: Amanda Barboza / Durando o Festival Soy Loco Por Ti Juquery em 2022

Por isso as peças teatrais, obras de arte, poesias, livros, documentários entre as múltiplas linguagens artísticas seguem contando, nos dias atuais, o que estava sendo registrado há mais de 100 anos atrás.

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