O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), demitiu o deputado federal Carlos Alberto da Cunha (União-SP), conhecido como Delegado Da Cunha, dos quadros da Polícia Civil paulista. A decisão foi publicada nesta quinta-feira (3), no Diário Oficial do Estado, e tem efeito imediato.
Da Cunha, que estava afastado das atividades policiais para exercer o mandato na Câmara dos Deputados, recebeu a pena de demissão a bem do serviço público, uma das punições previstas no Estatuto da Polícia Civil de São Paulo.
Segundo a publicação oficial, o governo considerou procedentes as acusações apresentadas no processo administrativo disciplinar. A decisão enquadra a conduta do então delegado em dispositivos relacionados, entre outros pontos, à revelação intencional de informações sigilosas conhecidas em razão da função, quando há prejuízo ao Estado ou a particulares, e à prática de ato definido em lei como improbidade.
O ato também cita parecer e despacho da Assessoria Jurídica do Governo, datados de 1º de setembro, entre os documentos utilizados para fundamentar a decisão.
Segundo a Folha de S.Paulo, a decisão final pela aplicação da punição mais rigorosa partiu de Tarcísio. Integrantes do governo ouvidos pelo jornal afirmaram que o governador teria considerado insustentável a permanência de Da Cunha nos quadros da Polícia Civil diante do histórico de problemas disciplinares.
Procurado por telefone e e-mail no início da tarde desta quinta-feira, o deputado ainda não havia se manifestado.
Processo envolve reencenação de operação contra sequestro
O processo que resultou na demissão está relacionado a uma ocorrência registrada em julho de 2020, envolvendo o sequestro de um homem levado para um chamado "tribunal do crime" na favela da Nhocuné, na Zona Leste da capital paulista.
De acordo com depoimentos prestados pela vítima e por policiais que participaram da ocorrência, dois agentes localizaram o cativeiro, prenderam o suspeito e libertaram o homem.
Posteriormente, segundo os relatos reunidos no procedimento disciplinar e divulgados pela Folha de S.Paulo, Da Cunha teria determinado que a vítima retornasse ao imóvel e permanecesse novamente na presença do sequestrador para que a operação fosse reencenada diante das câmeras.
Na gravação, Da Cunha aparece do lado de fora do imóvel e depois participa da entrada no local, em uma sequência apresentada como se registrasse o momento da descoberta do cativeiro, da prisão e do resgate. As imagens posteriormente foram divulgadas em emissoras de televisão e nas redes sociais do então delegado.
Ainda conforme a Folha, policiais disseram à Corregedoria que tentaram convencê-lo a não realizar a gravação. Os depoimentos apontam que a cena teria sido repetida porque, na primeira gravação, o suspeito apareceu algemado, o que poderia revelar que a prisão já havia ocorrido.
A vítima relatou que concordou com a reconstituição após receber a informação de que o material seria utilizado como prova na investigação. Depois, segundo seu depoimento, descobriu que as imagens seriam publicadas no YouTube.
Da Cunha admitiu posteriormente que houve uma reprodução da ocorrência, mas argumentou que se tratava de uma "reprodução simulada" destinada a auxiliar o processo. Especialistas ouvidos à época pela Folha de S.Paulo contestaram essa justificativa e afirmaram que procedimentos desse tipo devem ser conduzidos por profissionais responsáveis pela perícia.
O processo judicial relacionado ao episódio foi arquivado em 2024.
Histórico de processos disciplinares
A demissão ocorre após Da Cunha ter enfrentado outros procedimentos dentro da Polícia Civil. O deputado ganhou projeção nacional principalmente pela publicação de vídeos de operações policiais nas redes sociais, antes de ser eleito para a Câmara dos Deputados em 2022.
Segundo a Folha de S.Paulo, o Conselho da Polícia Civil já havia aprovado anteriormente ao menos duas propostas para sua demissão.
Uma delas envolvia a acusação de que Da Cunha teria atribuído a si a prisão de um homem apresentado nas redes sociais como "Jagunço do Savoy", apontado como suposto chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC). O vídeo relacionado ao episódio chegou a aproximadamente 30 milhões de visualizações.
A Corregedoria concluiu que o então delegado havia falsamente atribuído a si a prisão. A proposta de expulsão foi aprovada pelo Conselho da Polícia Civil em maio de 2022, mas a demissão acabou substituída por suspensão.
Outro procedimento foi aberto após Da Cunha fazer ataques públicos contra superiores da Polícia Civil durante transmissões pela internet. Entre os alvos estavam o então delegado-geral Ruy Ferraz Fontes e o então governador João Doria (PSDB).
Nesse período, em 2021, Da Cunha foi retirado das atividades operacionais, teve a arma funcional e o distintivo recolhidos e posteriormente pediu licença não remunerada. De acordo com a Folha, uma nova proposta de demissão foi formulada em agosto de 2022, mas ele teria sido absolvido nesse processo.
Em abril deste ano, o governo de São Paulo afirmou ao jornal que não houve interferência política ou tratamento diferenciado nos procedimentos anteriores e que as decisões foram tomadas com base em critérios técnicos e legais.
Deputado também é réu por violência doméstica
Além dos procedimentos administrativos relacionados à atuação policial, Da Cunha tornou-se réu em um processo de violência doméstica envolvendo sua ex-companheira, Betina Grusiecki.
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) apresentou denúncia contra o parlamentar pelos crimes de lesão corporal, ameaça e dano qualificado. Da Cunha nega as acusações.
Em fevereiro de 2026, a presença do deputado na reinauguração de uma Delegacia de Defesa da Mulher, na capital paulista, provocou críticas de entidades que atuam no combate à violência contra as mulheres.
Da Cunha estava licenciado da Polícia Civil em razão do mandato de deputado federal. Caso permanecesse nos quadros da instituição, poderia, em tese, retornar à carreira policial após deixar a Câmara. Com a decisão publicada nesta quinta-feira, ele deixa oficialmente de integrar a Polícia Civil de São Paulo.


