Sábado, 19 de setembro de 2026 MPJ | Mais Pelo Jornalismo

Buscar notícia

Publicidade
/apidata/imgcache/878c7a51cfdb3b32251191c59be59d4f.webp?banner=top&when=1789815865&who=153

Urgência pela vida

Ato Mulheres Vivas destaca brutalidade da violência de gênero no país .

A manifestação Mulheres Vivas, realizada em São Paulo, ganhou força não apenas pela convocação nacional contra o feminicídio, mas sobretudo pelo impacto emocional coletivo diante das notícias de violência extrema registradas nos últimos meses. No próprio dia do ato, enquanto milhares tomavam as ruas, novos casos de feminicídio surgiam no estado — como o de Tainara, atropelada e arrastada — reforçando a sensação de urgência. Um dos episódios envolveu uma mulher morta na frente da filha, um símbolo brutal da continuidade transgeracional da violência, em que o trauma não atinge apenas a vítima, mas também testemunhas inocentes que carregam para a vida marcas profundas de dor, medo e vulnerabilidade.

Esse pano de fundo conferiu ao protesto um tom ainda mais urgente. As ruas tomadas por milhares de mulheres (e aliados) ressoavam uma verdade incômoda: a violência de gênero não é exceção, mas parte de uma estrutura que se repete diariamente. Se ontem houve manifestação, ontem mesmo houve novas mortes — e essa simultaneidade devastadora foi percebida pelos movimentos como prova de que o país vive uma epidemia de violência contra mulheres.

Do ponto de vista psicanalítico, o feminicídio é compreendido como o extremo de um contínuo de agressões, que raramente começa de forma abrupta. A violência se instala de maneira lenta e insidiosa, infiltrando-se na vida psíquica da mulher antes de surgir como agressão física. É um processo que geralmente se inicia por meio da violência psicológica, da desqualificação sutil, do silenciamento, da manipulação emocional e, sobretudo, do ciúme mascarado de amor.

Publicidade
/apidata/imgcache/46274cf7894d1a0f089ffa23b11744c3.webp?banner=postmiddle&when=1789815865&who=153

Esse “ciúme amoroso”, frequentemente romantizado socialmente, é um dos primeiros sinais da dinâmica de dominação. Na leitura psicanalítica, ele revela não um excesso de amor, mas uma falha narcísica do agressor — alguém que, incapaz de lidar com a alteridade da parceira, precisa controlá-la para manter sua própria identidade estável. O controle torna-se uma defesa psíquica que impede o agressor de enfrentar suas inseguranças, angústias de abandono ou fragilidades internas. E esse controle, inicialmente sutil, vai se tornando habitual, naturalizado, até se transformar em violência explícita.

Para muitas mulheres, o processo é imperceptível no início. A psicanálise mostra que o sujeito tende a aderir à narrativa do outro quando este se apresenta como alguém que supostamente “sabe o que é melhor”, um mecanismo de submissão que se fortalece especialmente quando existe amor, dependência afetiva, medo ou isolamento social. Assim, a mulher, aos poucos, vai sendo esvaziada de sua potência simbólica: deixa de falar, deixa de questionar, deixa de existir como sujeito autônomo. Quando o silenciamento já é absoluto, a violência física deixa de encontrar resistência.

A manifestação Mulheres Vivas, portanto, não foi apenas um grito contra o ato letal em si, mas contra a cadeia psíquica e social que o antecede. Denunciou a cultura que normaliza o controle como cuidado, o ciúme como amor e a posse como romantização. Denunciou a estrutura que ensina mulheres a tolerarem o intolerável e homens a confundirem afeto com domínio.

Ao reunir milhares de pessoas, a mobilização transformou em voz coletiva aquilo que, na violência doméstica, é frequentemente vivido em silêncio absoluto: o medo, a culpa, a vergonha e o isolamento. A psicanálise nos lembra que romper o silêncio é sempre o primeiro movimento de libertação e, por isso, atos como esse têm uma função simbólica essencial: devolvem às mulheres a palavra que lhes foi tomada, afirmando que viver não pode ser um ato de resistência individual, mas um direito garantido socialmente.

Por: Patricia, Tainara, Daniela, Evelyn, Rayane, Allane, Layse, Juliana, Livia…

Leia também

Deputado Kiko Celeguim durante audiência na Câmara dos Deputados
Política 18/09/2026

Ação de quase R$ 400 mil contra Kiko Celeguim terá nova audiência na terça-feira (22)

Processo movido por ex-motorista cobra vínculo empregatício, horas extras e verbas rescisórias; deputado contesta as acusações e afirma que fatos narrados “não são verdadeiros”

Representantes da Defesa Civil de 27 municípios paulistas
Franco da Rocha 18/09/2026

Equipes de Franco da Rocha passam por capacitação para resposta a emergências

Capacitações promovidas pelo Governo do Estado abordaram gestão de riscos, planejamento, prevenção e estratégias de resposta a situações de emergência

Pessoas competindo em uma corrida de rua
Esporte 17/09/2026

Caieiras abre inscrições online para corrida de 7 km do Circuito CIMBAJU até 15 de outubro

Inscrições são gratuitas e exclusivas para moradores de Caieiras; prova será realizada no dia 24 de outubro, com largada e chegada no Estádio Carlos Ferracini

Imagem de segurança que mostra a veado-catingueiro durante a perseguição e uma foto dela após o resgate
São Paulo 17/09/2026

Veado-catingueiro prenhe é resgatado após perseguição de quatro horas na Grande SP

Animal de 18 quilos apresentou intenso estresse e está sob cuidados veterinários no Cetras-SP; expectativa é de soltura após recuperação